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“library of the imagination” — an interview with katty xiomara.
2021
Nesta edição do bve, e no âmbito do bve upcycling project, secção dedicada a moda sustentável, falamos com um dos maiores nomes da moda portuguesa - Katty Xiomara. Fomos ao estúdio no Porto, conhecemos o seu espaço, as suas criações e a sua alma. Conheça a Katty Xiomara, e a sua jornada no sustentável, assim como os seus conselhos para a Geração Z.
Como é que a Katty adotou a sustentabilidade na sua estratégia?
Nós nunca utilizamos o troféu de “ser sustentável” porque nunca nos apercebemos que já existia. O simples facto de produzirmos localmente, de forma artesanal já faz diferença, mas não era suficiente. Não faz sentido fazer coleções tão extensas e reduzimos a nível de quantidade e criamos um certo circuito. Dividimos a palette de cor entre agentes mundiais. Eles tinham o registo fotográfico de tudo, mas fisicamente tinham menos peças. No entanto, quisemos ir mais longe. Agora, não assinalamos a estação, temos peças intemporais, o que faz que não existam peças mais pesadas. Temos ambos nas duas coleções, o que faz com que exista uma adaptabilidade noutros países. Depois, trabalhamos no sentido de perceber quais os melhores materiais e fizemos muita pesquisa. Percebemos quais são os melhores materiais: poliéster reciclado dos oceanos, por exemplo. Algo que faz muito parte do ADN da nossa marca é a mistura dos materiais, o que também tivemos de reduzir. Tentamos eliminar fechos, acessórios, que fazem a diferença, no momento quando a peça se decompõe.
Para além da criação original de peças, também fazemos a sua renovação. Os clientes trazem peças que não usam e damos um novo visual ao alterar pequenos pormenores, aumentando a sua vida e reduzindo o desperdício.
Neste momento, a indústria da moda mundialmente está a mudar no que concerne às evoluções tecnológicas. Como é que acha que a indústria da moda portuguesa está a acompanhar o digital?
Acho que estamos a acompanhar, mas o público também tem de acompanhar. O que senti nas últimas duas estações do Portugal Fashion foi que tínhamos todas as condições de mais pessoas verem, mas isso não aconteceu. Não houve um interesse tão grande. Ainda existe muita vontade de ir a um desfile para ser “visto” independentemente do designer, enquanto que no online isso não acontece. Tivemos menos público digitalmente, mas muito mais interessante e focado porque queriam mesmo ver e não porque queriam “ser vistos”. Por outro lado, ainda há muito mito acerca do design português. Há receio que os preços possam ser elevados e preferem comprar marcas com mais estatuto. Todos nós, e a mim me incluo, temos de acreditar mais naquilo que temos dentro de portas. Acho que temos de valorizar mais as capacidades portuguesas. É triste ver as pessoas de fora reconhecerem a nossa qualidade e nós não o fazermos. A colaboração entre nós deveria ser maior, entre colegas e indústria.
A geração Z é considerada como os líderes do futuro e são considerados consumidores informados. De que forma é que vê a geração?
O consumidor da geração Z pode começar com pequenas ações como pedir mais esse tipo de peças e tipo de coleções, fazendo com que as grandes cadeias de moda sejam mais honestas e mais sinceras e que sejam reais e autênticos. O nosso papel como designers é começar esse ciclo, fazer com que tudo se ative e o comportamento das pessoas mude. Há 20 anos atrás comprávamos menos coisas, outros preços, não havia rotatividade. Hoje não acontece. A geração Z está habituada a ter imensa coisa. Para eles é tudo rápido, imediato, automático. Na moda, temos que olhar de forma mais lenta e temos de saber lidar com menos coisas, algo que a geração Z ainda tem de melhorar.
Quais os seus conselhos para a geração Z?
É ingrato porque parece que estamos numa cadeira de sabedoria. Vocês têm muito a ensinar-nos a nós. É um desfasamento geracional enorme, onde houve uma rapidez evolutiva enorme. Podemos ensinar claro, com a nossa experiência. Um dos conselhos é serem mais pacientes, resilientes, investigar, e fazer algo que eu não fiz quando estava a criar a marca: pensar em como vai ser feito, como vai parecer, estruturar, ter uma lista de contactos, saber como fazer. Tudo isso é muito importante. Criar uma marca demora.
Por último, o que a Katty tem como inspiração?
Uma biblioteca do imaginário bastante grande.
E que bela biblioteca, obrigada Katty por elevares o nome de Portugal e da moda nacional.
Entrevista por Catarina João Vieira Fotografia por Ana Sem Logica